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Vampiro - Os Filhos de Kali

A origem dos vampiros vista por um aspecto... Diferente


Os Dakini:

Caim. Esse nome traz grandes dúvidas e controvérsias à Família. A influência das lendas que atribuem ao "Terceiro Mortal" a origem dos Vampiros é tanta que os próprios se denominam Cainitas. Mas será que todos acreditam nisso? Ou desconfiam de relatos que afirmam ter sido o homem criação pronta e acabada? Como se pode ao mesmo tempo acreditar em Adão e Eva e reconhecer a veracidade das Teorias Evolucionistas de Charles Darwin?

Certamente há vampiros que consideram os textos bíblicos metáforas, ou mesmo mentiras. E acreditam que o Livro de Nod não passa de uma gigantesca farsa. Será assim tão difícil compreendê-los? Não é tão insensato questionar a existência de Adão e Eva. E nossas semelhanças evolutivas e biológicas com outras espécies animais? Teriam sido resultado de pura vontade divina?

Há vampiros que duvidam da veracidade dessas lendas. E possuem outras, e interessantes, explicações sobre sua origem e sobre como se difundiu 'A Farsa de Caim'.

 

"Caro Freidrich,

espero sinceramente que esse relato chegue intacto e intocado às suas habilidosas mãos. Mesmo você, com sua perspicácia audaz, não seria capaz de mensurar como sinto falta das noites de aprendizado e estudos sobre nossa origem e nossa espécie. Ponho minhas pesadas mãos sobre um daqueles volumes que destrinchamos e dissecamos e me lembro de como deixei para trás aqueles bons momentos em busca de uma resposta que não deveria ter sido encontrada.

Como sabes, meu pupilo, livrei-me da ameaça do Sabá graças aos teus talentos. Entretanto, meu exílio me proporcionou oportunidades ímpares de enriquecer meus conhecimentos sobre o mundo de sombras no qual nos movemos, furtivos e agitados. Máscaras caem e são pisadas por sapatos de luxo. Como foi desconfortável me refugiar nos cantos mais pegajosos do Oriente Médio, fugindo de Assamitas e mudando a toda hora minha aparência.

Foram alguns anos de fuga feroz e incessante, mas acima de tudo, vitoriosa. E finalmente pude me sentir mais seguro quando cheguei a Calcutá. Grande tolice. Não imaginava a grandiosidade do que estava para descobrir.

Em minha incessante busca por conhecimento, assumi uma forma etnicamente verossímil para um hindu e comecei a visitar os templos dessa fabulosa e instigante religião. A cultura indiana é de uma riqueza impressionante, caro Freidrich. Depois de alguns meses, já costumava a me sentir à vontade. Até o dia em que visitei um oculto e nebuloso templo de Kali, a deusa negra dos hindus. Observei atentamente o estranho culto, em meio a incensos, colares de ouro e correntes com sinos, utilizados pelos fiéis. E ao seu final, para minha surpresa, fui procurado pela sacerdotisa. Esta mulher, que se chamava Smashana, se dirigiu a mim em inglês e disse que éramos irmãos. Considerei que aquilo era uma cortesia de uma sacerdotisa preocupada em aumentar seu corpo de fiéis, e aceitei acompanhá-la para o interior do templo. A curiosidade foi irresistível quando ela me disse que faríamos um ritual fechado aos outros fiéis.

Fui levado a uma sala oval e iluminada apenas por velas. Havia outras pessoas nesse culto secreto. Permaneci calado e atento quando Smashana começou a entoar cânticos desconhecidos e estranhos. Certamente havia Membros entre os fiéis. E então alguém trouxe para a sala uma mulher acorrentada. Smashana desenhou um pentagrama místico no chão e a mulher foi pendurada de cabeça para baixo, acima do pentagrama. Imediatamente, reconheci o ritual como sendo de convocação de uma criatura demoníaca. Aquilo era muito maior do que eu havia imaginado. Paralisado pela curiosidade e pelo medo, não me mexi. E foi então que outro dos fiéis trouxe três vasimalhes com sangue e uma coruja. E Smashana cravou os caninos no animal. Sim, ela é uma de nós, Freidrich. A coruja piou alto e seu corpo foi colocado no pentagrama. E então todos os fiéis começaram a sugar a mulher que estava dependurada. Sim, eram todos vampiros. Smashana continuava a entoar os estranhos cânticos e então apareceu a figura mais assustadora que já vi desde aquele meu encontro com o Samedi no Haiti. Era uma mulher de pele negra como o ébano, nua, com a cabeça parcialmente decepada pendendo sobre seu ombro. Sua língua se enrolava em uma boca imensa e seus olhos e sombrancelhas eram rubros como o sangue que escorria de seu próprio pescoço pendente, e que degustava com macabro prazer. Sorveu o que restava da mulher sacrificada com voracidade, como se sugasse a alma, e não apenas o sangue. Então a criatura bebeu o conteúdo dos três vasilhames e cada um dos vampiros ofereceu sua jugular, provada pelo demônio. Tentei negar, mas o magnetismo daqueles olhos não permitiu. Ela degustou de minha vitae, e a sensação foi inefável. Que espécie de criatura poderia dominar um vampiro tão antigo como eu? A resposta estremece cada gota de sangue de meu pobre corpo. Sim, aquela entidade era a própria Kali, na verdade um demônio.

Extasiado e impotente com a descoberta, assisti impassível ao afastamento do demônio, que provavelmente retornou ao lugar de onde veio. Eu precisava de explicações, e as consegui através de Smashana.

Eles consideram que o demônio é mesmo a deusa Kali. O grupo se denomina "Filhos de Kali" e são todos vampiros. E o nome que adotam é bastante literal. Como nós, Freidrich, eles não crêem no mito de Caim e Abel, que chamam de 'A Farsa de Caim'. E apresentam uma complexa e interessante teoria sobre a origem de nossa espécie, que eles não denominam Cainitas (o motivo é óbvio), mas Dakinis.

É preciso que você tome parte desse conhecimento, meu pupilo. Segundo Smashana, a deusa Kali começou a ser invocada pelos hindus há tempos imemoriais. Pediam-na ajuda em suas guerras, e em troca, Kali pedia o sangue dos inimigos. Alimentando-se do vitae que os hindus lhe forneciam, o demônio aumentou imensamente o seu poder e sua sede de sangue. Entretanto havia um rei justo que se opunha ao derramamento de sangue perpetrado por Kali e seus seguidores. Seu nome era Vikram e com sua coragem e bravura conseguiu impor derrotas a Kali. Para se vingar, o demônio, agindo como um succubus, assumiu a forma de uma belíssima mulher e invadiu o quarto do Rei Vikram durante a noite, seduzindo-o e tendo relações sexuais com ele. Dessa união física entre Vikram e Kali surgiu um fruto. Kali utilizou sua gravidez para humilhar Vikram, vingando-se dele. Todavia o destino foi cruel e a criança híbrida nasceu morta. Com o intuito de manter vivo a prova de sua vingança, Kali deu de seu poderoso e imortal sangue à criança, revivendo-a. Deu-lhe também o nome de Dakini. Esse indivíduo foi o primeiro vampiro. Apesar de ter adquirido sua condição quando ainda era um bebê, seu imenso poder permitiu que alcançasse a idade adulta, ao contrário do que normalmente acontece quando alguma criança é Abraçada.

E então, para aplacar sua solidão, Dakini produziu sua progênie. Foram treze no total. Sim, os Antediluvianos. A partir daí, a versão dos dakinis para a nossa origem não diverge do que acreditam a Camarilla e o Sabá, Freidrich.

É no mínimo uma versão interessante. E você acharia ainda mais se tivesse visto o demônio em pessoa. Os 'Filhos de Kali' também utilizam o conceito de geração. Para eles, Kali é a primeira geração. A segunda possui um único indivíduo, Dakini, que gerou os treze Antediluvianos. Segundo o culto, Vikram obrigou Dakini a se exilar da Índia, levando sua primeira progênie, que seria um membro de uma tribo nômade do norte da Índia, tribo esta que daria origem aos ciganos mais tarde. Era uma mulher de nome Enóia, a Antediluviana dos Gangrel. Juntos, passaram pelo Oriente Médio até a Europa, e a progênie de Dakini foi crescendo durante o caminho. Depois, uma decepção fez com que ele se unisse à sua mãe nos Reinos Demoníacos, e ele nunca mais foi visto.

Entretanto, subsistem entre os dakinis alguns costumes derivados dessa tradição. Quando alguém é Abraçado, deve-se além dos procedimentos conhecidos por todos os Membros, fazer com que o neófito se una à deusa Kali. Isso é feito através de uma relação sexual (relembrando o que aconteceu entre Kali e Vikram) entre o novo dakini e um representante da deusa, seja um sacerdote ou uma sacerdotisa. Essa tradição se mantém viva apesar de a maioria dos vampiros não sentir mais prazer físico em uma relação sexual. Na verdade, quando me foi proposto união a eles, recusei em parte por necessitar passar por esse humilhante ritual.

Deves concordar que essa história é bastante mais verossímil que acreditar em um conto bíblico, meu pupilo. Contudo, fez-me imaginar qual teria sido o propósito de difundir a hipótese de descendermos de Caim. Certamente, Kali não se esforça para se manter escondida, ou teria me impedido de continuar vivo. Penso em uma manobra dos Antediluvianos, mas com que objetivo? Talvez fazer-nos acreditar que estamos tão distantes do vampiro primordial que jamais poderemos travar contato com ele, e assim fazer-nos esquecer do perigo que se aproxima. Talvez."

 

Carta de Woislav, ancião Tzimisce, a seu discípulo Freidrich

 

Fernando Couto Garcia
Agradecimentos a Marcelo Del Debbio

 

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